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Registo de beneficiários efetivos na Alemanha: o que mostra e o que não mostra – risco de fornecimento

O Transparenzregister alemão – o registo central de beneficiários efetivos – disponibiliza informação sobre titulares de participações superiores a 25 % nas entidades registadas na Alemanha. Mas o seu alcance prático é mais limitado do que aparenta: a cadeia de controlo interrompe-se com frequência em holdings estrangeiras, os dados históricos são escassos, e a consulta pública foi significativamente restringida pelo Tribunal de Justiça da UE em novembro de 2022. Para uma avaliação de risco de fornecimento. isto é. Para determinar quem controla efetivamente um fornecedor alemão antes de celebrar um contrato de longo prazo ou de integrar uma cadeia de abastecimento. o Transparenzregister é apenas um ponto de partida. Os registos complementares acessíveis gratuitamente, em particular o Handelsregister, o Bundesanzeiger e o portal de insolvências, fornecem frequentemente dados mais fiáveis e imediatamente verificáveis.

O que é o Transparenzregister e o que contém

O Transparenzregister (Geldwäschegesetz, GwG) foi criado em 2017 e tornou-se um registo autónomo e consultável a partir de agosto de 2021, na sequência da quinta diretiva antilavagem de dinheiro da UE. Até essa data, funcionava como registo de referência – a informação era considerada registada se constasse de outros fontes públicas (Handelsregister, atas notariais, etc.).

O que o registo declara conter: nome, data de nascimento, nacionalidade. País de residência e natureza e extensão do interesse económico de cada beneficiário efetivo de entidades jurídicas com sede na Alemanha (GmbH, AG, KG, GmbH & Co. KG, associações, fundações e outras). A regra base é a participação direta ou indireta superior a 25 % do capital ou dos direitos de voto.

Limitação estrutural fundamental: quando o controlo é exercido por intermédio de uma sociedade holding estrangeira. frequente em grupos multinacionais –, a entrada no registo identifica a holding intermédia, não o indivíduo no topo da cadeia. O próprio registo prevê que, na ausência de beneficiário efetivo identificável, seja designado o representante legal (fiktiver Wirtschaftlicher Berechtigter). O que na prática significa que o CEO ou administrador da sociedade alemã aparece como beneficiário efetivo mesmo sem deter qualquer participação real.

Restrições de acesso após o acórdão do TJUE de novembro de 2022

Em 22 de novembro de 2022. O Tribunal de Justiça da União Europeia declarou inválida a disposição da quinta diretiva AML que impunha o acesso público irrestrito aos registos de beneficiários efetivos (processo C-37/20 e C-601/20). O tribunal considerou que o acesso ao público em geral – sem exigência de interesse legítimo demonstrável – viola os direitos fundamentais à vida privada e à proteção de dados.

Na sequência desta decisão, a Alemanha limitou o acesso ao Transparenzregister: a consulta deixou de ser possível sem registo prévio e sem declaração de interesse legítimo. Para efeitos de diligência devida em cadeias de fornecimento, a demonstração de interesse legítimo é geralmente aceite quando o requerente é parte numa relação contratual existente ou potencial com a entidade visada. Ou quando existe obrigação legal de verificação (por exemplo, para entidades sujeitas à lei de diligência devida na cadeia de abastecimento, Lieferkettensorgfaltspflichtengesetz, LkSG). Mesmo assim, o acesso pode ser recusado se a divulgação colocar em risco o beneficiário efetivo (por exemplo, risco de perseguição ou violência – cláusula de proteção do § 23 GwG).

Implicação prática: empresas estrangeiras sem estabelecimento na Alemanha têm mais dificuldade em demonstrar interesse legítimo aceite pelos operadores do registo. A obtenção de informação pode exigir a intervenção de um advogado local ou de um representante registado.

Handelsregister: o complemento mais fiável – e agora gratuito

Desde 1 de agosto de 2022, na sequência da lei DiRUG (Gesetz zur Umsetzung der Digitalisierungsrichtlinie). O portal handelsregister.de passou a disponibilizar gratuitamente e sem registo o conteúdo integral do registo comercial alemão. incluindo documentos submetidos: listas de sócios (Gesellschafterlisten), contratos sociais (Gesellschaftsverträge), atas de deliberações e contas anuais (Jahresabschlüsse). Esta alteração é de grande relevância para a avaliação de risco de fornecimento.

O que se obtém gratuitamente no Handelsregister:

  • Sociedades comerciais registadas (GmbH, AG, KG, OHG, GmbH & Co. KG): objeto social, capital, administradores, procuradores, sede;
  • Gesellschafterlisten (listas de sócios de GmbH), que identificam os titulares de participações e as respetivas percentagens – documento central para verificar o controlo direto de uma GmbH;
  • Contratos sociais e alterações: permitem verificar cláusulas de voto, direitos especiais, restrições de transmissão;
  • Atas de deliberações relevantes, quando depositadas;
  • Contas anuais, quando a sociedade as deposite no Handelsregister (muitas depositam no Unternehmensregister – ver abaixo).

O que não está disponível: o Handelsregister não permite pesquisa por nome de pessoa física (não existe índice pessoal público). Para localizar todas as sociedades em que uma determinada pessoa é administradora ou sócia, é necessário recorrer a bases de dados comerciais ou a pesquisa manual sociedade a sociedade. As extratos certificados (beglaubigte Abschriften) continuam a ser pagos.

Penhor de participações sociais: a constituição de penhor sobre quotas de GmbH é visível indiretamente – pode constar de anotações na Gesellschafterliste ou em documentos notariais depositados. Não existe um registo autónomo de penhores sobre participações sociais em sentido estrito; a verificação exige leitura dos documentos depositados.

Bundesanzeiger: publicações obrigatórias e contas anuais

O Bundesanzeiger (Diário Federal) é um portal público e gratuito que concentra as publicações legalmente obrigatórias para sociedades comerciais alemãs. Para efeitos de avaliação de fornecedores, as informações mais relevantes são as seguintes:

Contas anuais: as sociedades de capitais (GmbH, AG) são obrigadas a depositar as suas contas anuais no Bundesanzeiger ou no Unternehmensregister. A periodicidade e o detalhe variam consoante a dimensão da empresa: as microempresas podem publicar apenas o balanço; as grandes sociedades devem publicar demonstração de resultados, notas e relatório de gestão. A maioria das PME deposita com atraso significativo – frequentemente um a dois exercícios em atraso relativamente ao período corrente.

Avisos de dissolução, fusão e transformação: publicados obrigatoriamente, permitem verificar se uma contraparte está em processo de liquidação ou de reestruturação societária.

Sanções por incumprimento de depósito: o Bundesamt für Justiz (Ministério da Justiça Federal) impõe coimas por não depósito. A ausência de contas no Bundesanzeiger é, por si só, um sinal de alerta – pode indicar desobediência sistemática, insolvência informal ou estrutura de fachada.

Insolvências: insolvenzbekanntmachungen.de

O portal insolvenzbekanntmachungen.de centraliza os anúncios de insolvência de todos os tribunais alemães e é de acesso público e gratuito. A pesquisa por pessoa coletiva funciona sem restrições adicionais – basta indicar o nome da empresa e o estado federado (Bundesland) onde se encontra registada.

O que se obtém: data de abertura do processo, tribunal competente, número do processo, nome do administrador de insolvência, tipo de processo (insolvência regular, plano de insolvência, liquidação). Os anúncios incluem convocatórias de credores e decisões de abertura ou encerramento de processo.

Limitações importantes: um resultado negativo – ausência de qualquer registo de insolvência – não garante que não exista pedido de insolvência em curso. Existe um hiato temporal entre a apresentação do pedido e a publicação do anúncio. Além disso, o portal não cobre procedimentos de reestruturação extrajudicial (StaRUG – Lei de Estabilização e Reestruturação de Empresas), que podem estar a decorrer sem qualquer publicação pública.

Processos de insolvência de consumidores: a partir de duas semanas após a abertura do processo. A consulta exige dados adicionais (tribunal e número de processo), o que na prática torna difícil o acesso por parte de terceiros sem esses elementos. Para pessoas coletivas, esta restrição não se aplica.

Registos fechados ou de acesso muito limitado

Vários registos relevantes para a avaliação de fornecedores na Alemanha são, na prática, inacessíveis a terceiros sem relação especial com o objeto da consulta:

Grundbuch (registo predial): o registo predial alemão é fechado ao público em geral. O acesso exige a demonstração de berechtigtes Interesse (interesse legítimo), reconhecido pelo tribunal ou conservatória competente. Credores, potenciais compradores e determinadas autoridades têm acesso; terceiros sem relação direta com o imóvel ou com o titular não o têm. Não existe consulta eletrónica pública livre.

KBA – registo de veículos: o Kraftfahrt-Bundesamt (KBA) mantém o registo central de veículos, mas os dados de titularidade são fechados. A consulta sobre o proprietário de um determinado veículo ou sobre o conjunto de veículos registados em nome de uma empresa não está disponível ao público.

Licenças e autorizações administrativas: não existe na Alemanha um registo unificado de licenças comerciais ou autorizações setoriais. As autorizações são geridas a nível municipal, distrital ou estadual (Landesbehörden), e a sua consulta por terceiros não é geralmente possível sem base legal específica. Para setores regulados (farmacêutico, financeiro, energia), os respetivos supervisores – BaFin, Bundesnetzagentur, entre outros – publicam alguns dados sobre entidades autorizadas, mas a cobertura é parcial.

A interrupção da cadeia: onde o Transparenzregister falha na prática

Para avaliar o risco de fornecimento. especialmente em contextos de sanções, exportação controlada ou due diligence ESG –. A questão decisiva não é saber quem aparece no registo, mas sim se a informação registada reflete a realidade do controlo. Existem três situações recorrentes em que a cadeia se interrompe:

1. Holdings interpostas em jurisdições terceiras. Quando o controlo é exercido através de uma sociedade holding nos Países Baixos, no Luxemburgo. Em Chipre ou noutra jurisdição europeia com registo de beneficiários efetivos próprio, o Transparenzregister alemão apenas identifica essa holding como titular. A verificação do beneficiário efetivo real exige consulta dos registos da jurisdição da holding – e assim sucessivamente ao longo da cadeia.

2. Estruturas de voto sem participação formal no capital. Acordos parassociais. Direitos de voto por procuração ou estruturas de ações sem direito a voto podem conferir controlo efetivo sem que a participação ultrapasse o limiar de 25 %. Estas estruturas raramente são visíveis no Transparenzregister e podem não constar dos documentos depositados no Handelsregister se forem acordos privados não sujeitos a registo.

3. Trusts e fundações fiduciárias. A Alemanha não tem uma figura jurídica interna de trust, mas entidades alemãs podem ser controladas por trusts estrangeiros. O GwG exige o registo do beneficiário efetivo do trust quando este detém ou controla uma entidade alemã, mas o cumprimento desta obrigação é difícil de verificar externamente.

O que verificar antes de integrar um fornecedor alemão numa cadeia de abastecimento

Com base nos registos disponíveis, um processo de verificação mínimo antes de celebrar um contrato de fornecimento de médio ou longo prazo deve incluir os seguintes passos:

Passo 1 – Handelsregister: verificar a atual Gesellschafterliste (para GmbH) ou estrutura acionista registada (para AG). Confirmar administradores em funções e quaisquer restrições de representação. Identificar alterações recentes na estrutura societária ou no capital.

Passo 2 – Transparenzregister: apresentar pedido de consulta com declaração de interesse legítimo contratual. Cruzar o beneficiário efetivo declarado com a Gesellschafterliste. Identificar entradas com fiktiver Wirtschaftlicher Berechtigter – sinal de que a cadeia de controlo não foi completamente esclarecida.

Passo 3 – insolvenzbekanntmachungen.de: verificar ausência de processo de insolvência ativo. Repetir a verificação periodicamente durante a vigência do contrato.

Passo 4 – Bundesanzeiger / Unternehmensregister: consultar as últimas contas anuais disponíveis. Avaliar a dimensão da empresa, o nível de endividamento e eventuais notas sobre litígios, garantias prestadas ou contingências relevantes.

Passo 5 – Verificação de sanções: os registos alemães não incluem informação sobre sanções internacionais. A verificação contra as listas de sanções da UE, dos EUA (OFAC) e do Reino Unido deve ser feita separadamente, com base na identidade dos beneficiários efetivos identificados nos passos anteriores.

Passo 6 – Registos da jurisdição da holding, se aplicável: se o titular identificado na Gesellschafterliste for uma sociedade estrangeira, a due diligence deve prosseguir no registo de beneficiários efetivos da jurisdição dessa sociedade.

Implicações específicas para cadeias de fornecimento sujeitas ao LkSG

A Lei Alemã de Diligência Devida na Cadeia de Abastecimento (Lieferkettensorgfaltspflichtengesetz, LkSG), em vigor desde 1 de janeiro de 2023 para empresas com mais de 3 000 trabalhadores na Alemanha e desde 1 de janeiro de 2024 para empresas com mais de 1 000 trabalhadores. Impõe obrigações de verificação de fornecedores diretos e, em determinadas circunstâncias, de fornecedores indiretos. A identificação do beneficiário efetivo do fornecedor – e a sua eventual ligação a Estados, grupos ou indivíduos associados a violações de direitos humanos ou ambientais – é parte integrante dessa diligência.

O Transparenzregister é expressamente reconhecido como fonte de verificação no contexto do LkSG. Mas a sua limitação prática. nomeadamente a impossibilidade de identificar o beneficiário efetivo real em estruturas com holdings interpostas. significa que o cumprimento formal do requisito de consulta do registo não equivale ao cumprimento substantivo da obrigação de diligência devida. As empresas sujeitas ao LkSG devem documentar não apenas a consulta ao registo, mas também os passos adicionais tomados quando o registo não permite identificar o controlador final.

Como a Ferraz & Whitmore pode ajudar

A Ferraz & Whitmore apoia empresas e investidores na realização de due diligence sobre contrapartes alemãs, incluindo a verificação de beneficiários efetivos em estruturas com elementos transfronteiriços. O nosso trabalho inclui a consulta e interpretação dos registos públicos alemães, a identificação das lacunas de informação e a elaboração de recomendações práticas para mitigação do risco de fornecimento.

Para questões de due diligence corporativa, avaliação de contrapartes ou cumprimento do LkSG, pode contactar-nos através de info@ferrazwhitmore.com ou agendar uma chamada inicial. A equipa de fiscalidade e proteção de dados está também disponível para questões que envolvam a interação entre obrigações de reporte e restrições de acesso a dados pessoais em registos públicos. uma tensão crescente no regime europeu pós-2022.

Disclaimer: este artigo destina-se a fins de informação geral e não constitui aconselhamento jurídico. O regime de acesso ao Transparenzregister e a outros registos públicos alemães está sujeito a alterações legislativas e administrativas. A Ferraz & Whitmore não se responsabiliza por decisões tomadas com base exclusivamente neste texto. Para aconselhamento específico, consulte um advogado qualificado.

Revisto por
Analista Jurídico · Fiscalidade e Proteção de Dados